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A passagem do jardim-de-infância para a escola

Leonore Bertalot

trecho extraído do livro - Aprender com as crianças


"Os Homens aprendem a saber isto ou aquilo, mas não aprendem a aprender da vida. Não sabem aprender dos fatos e então ocorrem fatos que eles não sabem enfrentar." Rudolf Steiner.

O Homem sempre tem oportunidades para aprender da vida. A criança bem pequena já aprende como a mãe reage ao seu choro, às suas necessidades, às suas manhas; logo sabe que o fogo queima, etc. Tudo isso ela não aprende refletindo, pensando, mas por meio da experiência prática.

E a criança passa por fases de aprendizado bem diferentes.

Inteligência Corporal

Antes da troca dos dentes, a força que predomina no relacionar-se com o mundo ao redor é prática, direta, imediata. Podemos chamá-la inteligência prática, espontânea. Esta inteligência já funciona quando o cérebro ainda não tem a estrutura lingüística para a reflexão ou assimilação racional. Vendo que a inteligência prática, volitiva, é a primeira atividade inteligente à nossa disposição para aprender da vida, devemos concluir que tudo que tem a ver com a vida prática é o que forma o ser humano no primeiro setênio da vida.

Todos os objetos, todas as formas, luzes, cores, gestos, movimentos, sons, são assimilados, interiorizados subconscientemente ou, na imagem que usei, com a inteligência corporal prática. Nós chamamos esta fase do desenvolvimento infantil da fase física. O que se desenvolve preponderantemente até a idade escolar é o organismo físico, é o aprender a viver com o organismo físico em sua relação com o espaço ao redor e com o tempo.

O dedo que sentiu o fogo queimar não será esquecido tão cedo e durante os anos da infância isto se transforma em conhecimento: o fogo queima e a criança pequena sabe disso sem precisar de nova experiência imediata. Ela pode produzir a imagem do fogo que queima, do dedo que arde. A sua memória evoluiu e a forma de aprender, de assimilar conhecimentos, mudou.

Assim como as pessoas gostam de guardar coisas numa arca ou num cofre, assim também a criança vai colecionando imagens, vivências, conhecimentos em sua alma. Ela cria seu mundo interior e o protege, formando pouco a pouco uma cerca ou até um muro para sentir-se à vontade. Este seu mundo não consta de conhecimentos abstratos, racionais, que seguem a lógica racional do adulto; ele ainda é envolto no véu da fantasia e dos desejos "faz de conta", de esperanças, sonhos e tudo que tem a ver com a vida afetiva, os sentimentos.

A Força do Sentir

Podemos chamar a força que reina nesse interior da criança a força do sentir, a inteligência dos sentimentos, das emoções, dos afetos. Esta força predomina no relacionamento da criança com o mundo a partir da troca dos dentes, no fim do primeiro setênio. É a força inteligente com que devemos trabalhar quando a criança entra na escola. É a força que sabe aprender da vida, é a força que quer aprender a aprender. É a fase da máxima disposição para aprender, para ser direcionado, guiado e instruído através da motivação emotiva, através da imaginação, através da "inteligência afetiva". Tudo que entra por este caminho no mundo interior da criança é aceito como um alimento agradável e se torna conteúdo importante na arca da criança, ou seja, no jardim da alma infantil.

Inteligência Psíquica

Depois da troca dos dentes, o que se sobrepõe no desenvolvimento é o organismo psíquico, da relação afetiva com o mundo físico e psíquico ao redor. O que é inteligente então para a captação do mundo é o sentir, que representa de forma meio consciente o mundo em imagens. É inteligência imaginativa. Ela passará por vários estágios, aprofundado-se e tornando-se paulatinamente mais objetiva e racional.

Inteligência Racional

O organismo racional próprio assume seu desenvolvimento preponderante - os três organismos sempre estão evoluindo - apenas a partir da pré-adolescência. No fim desta terceira fase, em que o pensar é o veículo da inteligência, começa a vida adulta com um primeiro período de adaptação profissional-social-familiar com as três forças inteligentes, que então devem servir ao indivíduo para traçar seu caminho pela vida e forjar sua própria biografia. Podemos dizer, então, que no fim da adolescência começa a realização físico-psíquico-racional plena da vida.

Enfoque Evolucional do Aprendizado

Como a pedagogia Waldorf pratica um enfoque evolucional do aprendizado, nós sempre temos em mente o Homem global em evolução e respeitamos o fato de que cada fase evolutiva prepara a próxima, de maneira correta, quando suas forças ativas são respeitadas e estimuladas. Por isso devemos fomentar de todos os meios possíveis a força inteligente corporal prática na primeira fase, na idade pré-escolar, época em que a criança freqüenta o Jardim-da-Infância, oferecendo-lhe todo tipo de oportunidades para que imite os atos sensatos dos adultos e desenvolva sua fantasia no brincar. Ela está aprendendo a viver através da imitação e da espontaneidade na comunicação com o meio ambiente e a natureza.

No fim desta primeira fase, ocorrem várias transformações.

O corpo infantil típico, rechonchudo, começa afinar e a esticar. Os braços e as pernas se alongam e os dedos se afinam, começando pela ponta. A mandíbula se alarga e nascem os molares permanentes. Os dentinhos incisivos se afrouxam e suas raízes já se formam os dentes novos. Este processo de dentição dura vários anos, geralmente dos 6 aos 9 anos.

As mudanças físicas são acompanhadas por um período de comportamentos estranhos e diferentes dos que conhecíamos da criança até então. As perguntas e as preocupações se tornam mais complexas, do tipo: "Mãe, eu vou pedir a Deus que se você morrer, Ele me faça morrer também e daí voltamos juntos com a vovó e fazemos uma surpresa para o papai"; "Eu quero ir para uma escola onde me ensine tudo"; "Quando eu era pequena, eu não sabia..." e "não quero brincar... não sei com que brincar..."

Importância do Meio Ambiente

Muitos lares já não oferecem um pólo seguro e aconchegante tal como a criança precisaria. Se ela for muito cobrada ou deixada livre demais, se ela não encontrar um ambiente agradável para imitar, para aprender a viver, muito cedo criará uma situação de apreensão, de medos e dúvidas e, por isso, uma diminuição da força inteligente que está aberta para aprender e evoluir. Pois a força da imitação é realmente uma escola para a vida. Ela atua na criança como o primeiro meio de comunicação com o mundo ao redor. Ela reage espontaneamente a qualquer estímulo. Tudo, os pensamentos, as alegrias e tristezas, medos e sustos, a destreza e a incapacidade, o modo corajoso, o medroso de enfrentar situações da vida, tudo , tudo ela absorve, assimila como predisposições caracterológicas.

Cabe dizer que este primeiro período de aprendizado da vida ocorre naturalmente, não precisa ser imposto; é só deixá-lo acontecer e, como educador, oferecer o meio adequado.

Os Graus de Maturidade

Em torno dos seis anos, a criança perde paulatinamente o impulso da imitação, o pólo de segurança dela própria. Ela se sente insegura, acha que lhe falta aprender muita coisa, não quer mais brincar como antes e quer ser igual aos grandes. De muitas formas, ela mostra que a sua segurança anterior do aprendizado espontâneo está se perdendo e uma atitude de comunicação está querendo surgir. Se anteriormente a criança reagia mais pelo que fazíamos, agora se interessa cada vez mais pelo que falamos.

Perder uma força, um hábito, cria insegurança e, se nós entendemos isto, podemos ajudar de forma certa. A criança quer adquirir habilidades que ainda não tem e que os maiores têm. É ótimo se, nesta situação, a mãe ou a avó lhe ensinam a fazer os trabalhos caseiros, limpar, arrumar, cozinhar, lavar, etc.

Na escola, então, ela aprenderá outras tantas habilidade frutíferas para a fase futura do pensar, apenas se apelamos à força inteligente do sentir, da imaginação ou representação pictórica no ensino básico entre os 7 e 14 anos. O sentir imaginativo bem estimulado é o melhor preparo para o futuro pensar rico e criativo.

É perder tempo enfraquecer a força volitiva da criança se antes da época certa, insistirmos para que aprenda letras e cálculos ou definições de objetos, conjuntos, etc.

Da mesma forma é perder tempo estragar o cérebro e o caráter no segundo setênio, se forçamos os alunos avaliar, criticar e julgar porque eles ainda não têm estrutura psíquica-racional adequada. Avaliar e julgar só podemos fazer corretamente, ou seja, objetivamente, quando temos os conhecimentos básicos necessários. Esses conhecimentos a criança assimila antes na sua forma subjetiva, sendo guiada a observar e reproduzir ou registrar com carinho e exatidão o mundo que o professor lhe apresenta. Assim ela cria uma base moral sólida em sua inteligência afetiva que lhe servirá como alicerce sobre o qual edificar um raciocínio lógico,seu instrumento próprio para julgar e avaliar a si própria e ao mundo.

Com este amplo enfoque evolucional, a questão da maturidade escolar também deve ser tratada com profundidade. A criança está pronta para começar o aprendizado direcionado quando o seu físico, a sua relação social e o seu pensar demonstram o fim da fase anterior.

O que deve estar pronta para ser usada, então, é a força da imaginação, que representa e recorda fatos e vivências por estímulo próprio. Quando a criança adquiriu uma maturidade social para sentir-se à vontade fazendo parte de um grupo, sendo atingida no grupo, quando desenvolveu a sensibilidade para sentir como o grupo e ela formam um todo, então ela está madura para aceitar ordens, solicitar indicações e procurar na autoridade do professor um novo pólo de segurança, que substitui a força da imitação, agora enfraquecida. Ela aceita o certo e o errado, o bom e o mau como algo inquestionável.

Muitas vezes falta a maturidade física, como a lateralidade indefinida, motricidade fina pouco desenvolvida, e por isso o processo em adquirir habilidades é vagaroso. Consciência e vivência espacial vão junto com a segurança do equilíbrio no pular corda em pés diferentes, etc. Importante é ver como estão desenvolvidos do tato, do movimento próprio, do equilíbrio, a vista e o ouvido, etc. A fala é articulada e usada corretamente?

Importante é saber que nos casos normais, num ambiente adequado, a maturidade escolar é um processo natural da evolução, é só percebê-lo e apoiá-lo. Algumas crianças demoram mais, outras menos. Hoje existem cada vez mais crianças com marcante imaturidade psíquica ou neurológica. Mas quando sabemos que cada passo que a criança deve dar ocorre num ritmo cronológico, não nos deixamos enganar por uma ou outra precocidade intelectual, emocional ou física.

Qualquer unilateralidade no desenvolvimento infantil requer de nós um trabalho específico para harmonizar e equilibrar as três forças básicas e estimular a força da alma que deve dominar cada em cada fase. Assim, veremos que uma criança precocemente esperta pode ter pouco controle do seu sistema motor e dificuldades com a escrita, ou no desenho, etc. Neste caso, a inteligência corporal sofreu, a força da vontade é fraca e, se não cuidarmos, veremos surgir o hipercinético, o neuropata, etc. Isto significa que lhe falta um instrumento físico-psíquico adequado para usar a inteligência e desenvolvê-la. Por outro lado, a criança que continua com atitudes psíquicas infantis, impróprias para sua idade, precisa da nossa ajuda para desenvolver a necessária autonomia que lhe permita integrar-se e aprender num grupo, seguindo ordens e indicações do professor.

Em torno dos sete anos, uma criança crescida normalmente, em condições ambientais adequadas, adquire as características físicas, psíquicas e racionais que chamamos de maturidade escolar. É a idade em que devemos escolarizar as crianças. O ensino, porém, ainda deverá respeitar a maior ou menor prontidão de cada aluno individual.

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