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Crianças agressivas

Leonore Bertalot

Capítulo extraído do livro: Viver com crianças


Crianças inseguras são tímidas e preferem esconder-se a enfrentar um desafio ou qualquer situação desconhecida. Já aquelas chamadas "agressivas" reagem nervosas a todo obstáculo que se opõe a seus impulsos fortes e descontrolados.

Essas crianças são "auto-ativas", conscientes de si próprias, orgulhosas e facilmente irritadas. A sua aparente segurança e autoconfiança pode esconder uma carência, seja de calor de ninho, de ritmos na alimentação ou no dormir e acordar, e ainda de limites que proporcionem segurança e sirvam como pontos de referência. Assim como a mãe é, geralmente, o primeiro ponto em que a criança pequena se apóia e confia, assim os hábitos do dia-a-dia, as refeições que se seguem num ritmo regular, a higiene e os encontros familiares representam para ela indicadores, fatos amigos que sempre retornam. O organismo infantil se acostuma a esses ritmos que transmitem uma sensação de confiança e calma à alma sensível do pequeno ser que precisa orientar-se na vida dos seres humanos aqui na Terra.

Um ambiente agitado e barulhento, o que é bastante comum em nossas cidades, causa irritabilidade e agitação. O sistema nervoso da criança ainda está muito delicado, está em período de formação. No caso da criança hipersensível, é natural que ela se torne irrequieta e irritadiça, pois não sabe se defender contra tantas impressões.

Também é bom lembrar que o organismo da criança é como um espelho, é como um olho que reproduz o que vê. Gestos e palavras agressivas penetram fundo no organismo e formam o caráter, os hábitos.

O que podemos fazer?

Envolver essas crianças com muito carinho. Lembrar que ainda não estão em condição de dominar seus impulsos e instintos; que não é o seu verdadeiro ser que agride; que nestes casos a agressão é uma forma de chamar a atenção, um pedido de socorro. O nosso amor, a nossa oração em seu favor, a nossa paciência para com os ataques devem criar em nós a calma necessária para lidar com elas. Se a agressão delas é reflexo do meio ambiente, pelo menos em boa parte, então, a calma carinhosa do educador também poderá refletir-se no comportamento dos educandos. A nossa confiança neles transmite segurança e ajuda a fazer aflorar em seu íntimo sentimentos afetivos para com o meio ambiente.

E, só resta tentar aplicar o que é óbvio. Cuidar do ritmo no dia-a-dia, colocar os limites possíveis e necessários. Tentar evitar os ataques, inventando alguma distração, como, por exemplo, sugerir: - Vamos fazer um tapetinho para a mesa do telefone? Preciso que você me ajude a descascar as batatas. Vamos chupar uma laranja. Vamos ver se o gatinho do vizinho já deu cria, etc.

Não há tempo para tais atividades? E o tempo que se perde durante o ataque, e depois, para juntar os cacos?

Em nosso programa diário é importante incluir momentos de dedicação exclusiva aos nossos filhos. Pode ser na hora de deitar, com uma história, por exemplo. Mas também é muito bom quando, durante o dia, uma criança tem toda nossa atenção e recebe elogios porque está lavando a louça ou aprontando a mesa. Com isto, ela adquire habilidades sociais, e a nossa atenção não reforça o egocentrismo que já costuma ser bastante expressivo nas crianças agressivas.

Sempre é bom verificar se a criança está sendo alimentada de forma adequada. Em todo caso, devem ser evitados exageros com doces, feijão, ovos, etc. Na revista Chão & Gente, publicada pelo Instituto Elo, saíram vários artigos bem instrutivos sobre o assunto.

A criança agressiva é imatura socialmente; ela é vítima da insegurança e confusão proporcionadas pela nossa civilização e merece que o meio ambiente a ajude a se encontrar corretamente na comunidade humana. O que a família não pode dar, deve vir do interesse altruísta de outros. Por isso a escola tem uma tarefa toda especial, colaborando com a educação em geral.

A televisão não substitui a carência de atenção e carinho. Ela só aumenta os problemas da criança, debilitando ainda mais a autodefesa, e, muitas cenas, nos programas, têm a característica de explorar, por exemplo, o instinto da agressividade.

Uma avó que goste de contar histórias folclóricas, contos de fada, pode oferecer o melhor remédio para qualquer criança, carente ou não. Vale tanto como o leite materno, amamenta a alma. E uma dica: quanto mais vezes recontar a mesma estória, maior será o efeito tranqüilizador para a agitação e a hiperatividade desgastante.

A propósito, recomendamos esse procedimento para a vovó Edwiges, que pediu orientação sobre o tema aqui tratado: o netinho dela talvez gostasse de ouvir muitas, muitas e mais vezes a história dos três porquinhos, que construíram cada um uma casinha para si. Um usou um monte de palha, outros gravetos e galhos, e o último a ter sua casa pronta, feita de pedras, viveu feliz e tranqüilo, porque o vento não destruiu e o lobo não invadiu o seu lar aconchegante e bem protegido. O fim da história poderia ser que esse porquinho fosse convidar seus coleguinhas menos afortunados a morar com ele, ou algo assim.

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